O Leão morde seu fundo em maio e novembro — 20% ou 15%, mesmo sem você vender nada
Seu fundo emagrece em maio e novembro mesmo parado. Quanto o Leão já levou antes da hora — e por que isso não é imposto extra?
Seu fundo emagrece duas vezes por ano, mesmo parado.
Você não vendeu nada. Não pediu resgate. Mesmo assim, no extrato de maio (ou novembro), o número de cotas caiu.
O nome estranho pra um golpe bem definido
“Come-cotas” não é gíria de corretora. É o apelido oficial do jeito que a Receita cobra Imposto de Renda de fundos de investimento — antes de você vender qualquer coisa.
No último dia útil de maio e no último dia útil de novembro, o fundo “vende” uma fatia das suas cotas pra pagar o IR sobre o que você já ganhou até ali. Você não vê essa venda. Só vê o saldo de cotas menor no extrato seguinte.
Por que maio e novembro, especificamente
A Receita não quer esperar você resgatar daqui a dez anos pra receber o imposto. Duas vezes por ano, ela antecipa a cobrança sobre o rendimento acumulado — e usa sempre a menor alíquota da tabela regressiva do tipo de fundo.
Fundo de curto prazo (carteira com prazo médio de até 360 dias) tem uma tabela de dois degraus: 22,5% até 180 dias, 20% depois disso. O come-cotas desse fundo usa 20%.
Fundo de longo prazo tem uma tabela de quatro degraus, dos mesmos 22,5% até 15% depois de 720 dias. O come-cotas desse fundo usa 15% — a alíquota mais baixa que existe pra fundo.
A conta que ninguém mostra no extrato
Pega R$ 100 aplicados a 14,15% ao ano — o CDI de hoje — parados por 1 ano num fundo. Brutos, sem imposto nenhum no caminho, esse dinheiro vira R$ 114,15.
Com o come-cotas de um fundo de longo prazo mordendo na alíquota de 15%, o mesmo R$ 100 fecha o ano em R$ 112,03. A diferença não desapareceu — foi recolhida em novembro, antes mesmo de você pensar em resgatar.
Escala isso pra um valor real. R$ 1.000 no mesmo fundo, pelos mesmos 14,15% ao ano, chegam a R$ 1.303,02 brutos em 2 anos — e é sobre esse caminho, não sobre o resultado final, que o come-cotas vai mordendo a cada seis meses.
Nenhuma fatia desse tipo sai de um CDB ou de um Tesouro Direto comprado direto, sem fundo no meio. Ali o Leão espera o resgate — só em fundo ele não espera.
Curto prazo ou longo prazo: a escolha que muda sua alíquota antes do mercado fazer qualquer coisa
Aqui mora o detalhe que separa dois fundos parecidos. R$ 10.000 aplicados a 14,15% ao ano por 5 anos, num fundo de longo prazo (come-cotas e alíquota final de 15%), fecham em R$ 17.973,98 líquidos.
O mesmo R$ 10.000, nas mesmas condições, mas dentro de um fundo de curto prazo — cuja alíquota mínima é 20% — fecha em R$ 17.504,92 líquidos. Mesma taxa, mesmo prazo, tabela diferente.
Antes de assinar, vale conferir se o fundo é classificado como curto ou longo prazo no regulamento. Isso decide o piso da sua alíquota antes de qualquer coisa acontecer com o mercado.
”Mas eu vou pagar de novo quando vender?”
Não. Come-cotas é antecipação, não cobrança extra. Ela entra na sua conta de IR final, e o único uso que a Receita faz do que já foi retido é abater do valor devido no resgate.
Se você vender antes do prazo que justificaria a alíquota mínima — um fundo de longo prazo resgatado com menos de 720 dias, por exemplo — a parte que falta da tabela regressiva é cobrada só ali, na hora do resgate.
O que escapa da mordida
Fundo de ações não tem come-cotas — paga IR de 15% só no resgate, tabela fixa, sem antecipação semestral. Poupança também é isenta, mas troca isso por um teto de rendimento bem mais baixo.
Comprar título público direto no Tesouro Direto, sem passar por fundo nenhum, é a terceira saída: o IR só é cobrado na venda ou no vencimento, pela mesma tabela regressiva, sem bimestre nenhum tirando fatia no caminho.
Se metade do motivo de evitar um fundo é essa mordida de maio e novembro, vale comparar o que sobra líquido direto no Tesouro contra a alternativa em fundo antes de aplicar de novo.
Taxas: CDI (14,15% a.a.), Banco Central; alíquotas de Imposto de Renda regressivo (22,5%, 20%, 17,5%, 15%) conforme legislação de fundos de investimento. Saldos calculados por juros compostos sobre essas taxas. Conteúdo educacional, não recomendação de produto financeiro.
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